
A teoria mais aceita é a que nossos ancestrais, tendo sempre por perto matilhas de lobos acabaram acolhendo um filhote perdido ou machucado e ainda na era Quaternária iniciou-se a bela amizade entre o homem e o ancestral do nosso tão conhecido cão doméstico. Descendente do lobo cinzento o cão tornou-se o mais comum e visível animal a viver entre os humanos e alguns achados fósseis registram ossadas humanas junto a ossadas de canídeos sugerindo apego, convivência ou afeto entre os dois mamíferos, e comprovadamente essa relação de amizade é anterior a relação entre outros dois mamíferos; os cavalos e os gatos. Conhecidos por sua lealdade aos donos, diz-se que o cão é o melhor amigo do homem; embora nem sempre o homem seja o melhor amigo do cão, já que pelas ruas podemos ver um grande número de cães abandonados, famintos e desprezados por donos que não souberam entender e respeitar essas maravilhosas criaturas.
Muitas raças foram ao longo de séculos selecionadas e treinadas para ajudar o homem em suas tarefas e até em sua sobrevivência como é o caso das distintas raças Border Collie – considerada uma das mais inteligentes entre os cães – usada no pastoreio de ovelhas, e o robusto São Bernardo, tão conhecido após ser protagonista no divertido filme Beethoven. A chamada posse responsável de cães e gatos é algo que muitos cidadãos ainda não praticam. Essa posse responsável tem como principio cuidar como um membro da família dos animais que estão sob nossa guarda, sabendo que esses animais precisam ser alimentados corretamente, vacinados, viverem em local onde possam se locomover, correr e ter abrigo do sol e chuva; e principalmente serem castrados ou vacinados para evitar a procriação descontrolada que por sua vez leva filhotes ao flagelo, humilhação e abandono pelas ruas de quase todas as cidades Brasileiras.
A “Síndrome do cachorrinho” é comum em muitas famílias, onde crianças e às vezes até adultos ao verem um cãozinho filhote, acham “bonitinho e fofinho” ignorando o fato de que eles vão crescer e envelhecer, ou que muitas vezes suas casas não comportam dignamente um animal impedindo-o de ter o mínimo de espaço ou conforto e ao descobrirem isso passam a pensar como “se livrar do problema”.
Certo dia almoçando na casa de um conhecido; um sujeito culto e de boa cepa, presenciei uma dessas situações. Esse conhecido me disse com uma naturalidade desconcertante que estava pensando em “soltar na rua” uma linda cadela mestiça por não ter como abrigar ela e mais dois cães em seu minúsculo quintal. Ao término daquele repasto embarquei em minha picape a carinhosa cadela - que hoje vive com uma cuidadosa família – e no trajeto fui pensando sobre a desumanidade do ato que aquele homem ria praticar com a cadela. Talvez por ter respeito e amor pelos cães eu tenha visto a quase decisão daquele homem como uma coisa abominável. Tratar bem os animais sejam eles domésticos ou não é uma prova de avanço civilizatório claramente expresso no pensamento do filosofo Humboldt que escreveu: “Avalia-se o grau de civilidade de um povo pela forma com que ele trata seus animais”.
Os maus tratos a animais são abomináveis, mas o zelo excessivo não trás benefícios a essa relação tão antiga; refiro-me aqueles donos de cães que talvez por carência afetiva, decepções na vida com outros de sua espécie, transferem para os cães um amor que poderiam ou deveriam ter por filhos, sobrinhos ou familiares e não raro vemos pessoas fazendo extravagâncias com seus peludos, gastando pequenas fortunas com “aniversários”, “casamentos”; “acessórios” ou ainda deixando fortunas em testamentos para animais de estimação num claro desrespeito à condição humana dominante e desvirtuando a bela relação construída ao longo dos séculos entre os homens e os animais domésticos.
Em que pese todo o amor nutrido por um animal de estimação, ele ainda é apenas um animal de estimação, merecedor sim de respeito e proteção, e não de excessos que chocam e ofendem o bom senso e a dignidade humana.
A relação de fidelidade e amor entre o homem e o cão foi bem retratada nos cinemas em filmes espetaculares como “Marley e Eu” ou ainda na bela atuação de Richard Gere no emocionante filme “Sempre ao seu lado” cujo enredo trata da fidelidade de um cão da raça Akita ao seu dono que morreu. Sem entender a morte do dono o cão o aguarda por anos a fio na estação de onde diariamente ambos iam juntos para casa. Uma emocionante história resgatada do verídico caso corrido no Japão onde há uma estatua do cão no exato local onde esperou até a morte pelo dono que nunca mais voltou.
Talvez por ter dois cães, um deles já com 12 anos tenho imenso respeito por esses inteligentes seres. Quando vejo aquele peludo deitado com seu focinho já esbranquiçado – sinal claro de idade avançada – e seus olhos meio caídos, mas que expressam sincero carinho sinto alegria e uma profunda gratidão pelos anos em que está comigo, trazendo-me a certeza de que Deus nos deu domínio sobre os animais para que cuidássemos deles e não para maltratá-los, fazendo assim jus a nossa condição de “seres racionais”.
Daniel Lopes reside em Cuiabá e escreve artigos para o Porto Notícias